DOCE PINGUINHA

Istória

Jorge Cisneiros

Era uma vez uma gotinha de água muito bondosa que a todos ajudava, a todos matava a sede, e por isso lhe chamaram Doce Pinguinha. A Pinguinha vivia no vasto oceano azul com outras gotas de água e frequentemente deixava a sua casa e viajava para ver mundo e ajudar quem dela precisava. E mais uma vez o fez…

Em sua ajuda veio o seu padrinho protector — o Solinho Vermelho. O Solinho aqueceu a Pinguinha e deu-lhe força e energia para viajar, e a Pinguinha tornou-se assim uma pequena nuvem que se elevou mais e mais alto no céu onde brincava o Menino-Ventinho. Vendo a pequena nuvem, o Menino-Ventinho pegou nela e transportou-a para bem longe, para terras desconhecidas. Pelo caminho, o Ventinho reuniu mais gotinhas também transformadas em pequenas nuvenzinhas, e com elas brincando criou enormes montanhas brancas ou carneirinhos encaracolados que por seu turno se esfumavam em penachos.

O Ventinho era igualmente bondoso e ajudava todas as gotinhas, e a nossa Pinguinha também. Por grandes aventuras passaram as nossas gotinhas, aventuras divertidas e perigosas. Especialmente arriscado foi um encontro com a Nortada, que atacou de repente e levou a Pinguinha e as suas amigas para o longínquo norte, e as congelou em belos e elegantes flocos de neve que rodopiaram em círculos numa dança branca e gentilmente aterraram na terra cobrindo-a de um encantador e suave tapete. Mas, mesmo nesta condição, a nossa Pinguinha de Neve permaneceu bondosa e gentil, protegendo a terra e os seus habitantes da maléfica geada.

Enquanto isso, o bom padrinho Solinho, vindo das terras do sul, não conseguia encontrar a sua Pinguinha e imediatamente adivinhou que ela fora decerto levada pela Nortada, e para norte se dirigiu à procura das gotinhas. De caminho para lá, deparou-se com uma imagem aterradora — tudo encantado e feito em gelo e neve ou simplesmente congelado e sem vida. E o padrinho Solinho deitou-se ao trabalho, tudo em que tocavam os seus mágicos raios dourados imediatamente ganhando vida. De súbito, reflectido num raio seu, viu o Solinho um pequeno floco de neve. De imediato reconheceu a sua pequena Pinguinha num belo vestido branco, mas completamente sem vida. E o Solinho começou a aquecê-la e ela ganhou vida, mexendo-se e correndo pelo solo gelado e frio. De caminho a Pinguinha encontrou-se com muitas outras gotinhas e juntas formaram um ribeiro, e divertidas gorgolejaram entoando uma alegre canção primaveril.

Feito o seu trabalho, o bom padrinho Solinho foi dormir. A velha Nortada regressou do polo norte, e não encontrando a Doce Pinguinha de Neve ficou muito zangada e partiu em busca dela, e de todas as outras gotinhas. E como ninguém aparecesse em defesa delas, a Nortada depressa levou a sua avante e transformou-as num ribeiro de gelo. Até que despontasse a manhã esteve a nossa Pinguinha encantada, até que despertasse o padrinho Solinho e a fosse desencantar e às suas amigas e fazê-las gorgolejar e cantar alegremente. Livres do encantamento e reavivadas, o cintilante e divertido marulhar continuou rolando por ali fora.

De caminho alimentaram a terra com a sua refrescante humidade, fertilizando-a e fazendo-a florescer. E encontraram-se com o senhor Rio grande e largo. E bem importante era ele, pelo trabalho que fazia a ajudar as pessoas a transportar no seu dorso todo o tipo de cargas. E era um trabalho duro e o Rio ocasionalmente gemia e suspirava, e a nossa Pinguinha ficou um pouco invejosa pois sempre sonhara fazer algo importante, e assim começou também a ajudar a navegar grandes navios. À medida que o tempo passava, mais longe descia a Pinguinha corrente abaixo.

Lá fora na rua já fazia calor de verão e não havia qualquer sinal de perigo, quando de repente um enorme tubo qual íman a sugou e levou para sabe-se lá onde e porquê. Mas não ficou a Pinguinha muito inquieta, pois muitas aventuras já ela vivera e todas elas acabaram bem. Quanto tempo passou ela a viajar no tubo de metal é difícil dizer, pois ela não tinha relógio e nem podia ter já que estava sempre molhada.

Mas um belo dia ela elevou-se bem alto no ar tubo fora e caiu com um suspiro de liberdade em pleno néctar de uma bela flor e com ele se misturou na forma de um pingo doce, cintilante pequena gotícula com os vibrantes e coloridos reflexos do arco-íris. Abanou a flor em todas as direcções, como que a fazer sinal ao bom padrinho Solinho e a dizer-lhe que mais uma vez estava em liberdade e se banhava nos seus bondosos raios. Sabe-se lá de onde, desceram abelhas melíferas penetrando as suas trombinhas em cada flor — e encontrando a nossa Doce Pinguinha. A Pinguinha deu a beber às abelhas da sua límpida e cristalina humidade, deslizou para uma folha e sorriu para o bom padrinho Sol, que transformou a Pinguinha numa nuvem que se elevou no céu, e de novo encontrou o Menino-Ventinho que nada tinha que fazer senão soprar numa ou noutra direcção e por vezes preguiçosamente fazer girar moinhos e enfunar velas. Pediu-lhe a Doce Nuvenzinha que a ajudasse a ir para casa e de bom grado o Menino-Ventinho aceitou e levou-a bem alto por sobre campos e florestas, cidades e montanhas.

De caminho depararam-se com um grande monte, e como o Menino-Ventinho era menino ainda e lhe faltava força para ultrapassar as altas montanhas, embateram contra o rochedo frio e a Doce Pinguinha-Nuvenzinha de novo em gotas se fez e rolou pelo penhasco abaixo directamente para um arroio que corria no sopé de um monte. Saltou alegremente de uma pedra para outra e correu divertida montanha abaixo, pulando sobre as rochas e respingando aqui e ali, e alegrou-se com a liberdade, o ar puro, o céu azul, o protector padrinho Solinho, a frescura do córrego e tudo o que encontrou pelo caminho. E quando encontrou nas margens do arroio uns quaisquer insectos que dele não se conseguiam aproximar, para aí matar a sede, pulou para fora da água, para uma haste de relva, e deu-lhes a beber da sua frescura. Pelo que todos lhe agradeceram, ela ficou feliz, e lá rolou num novo e sonoro gorgolejar pela corrente abaixo, correndo à desfilada com outras gotas no leito rochoso.

O arroio descia a montanha numa sucessão de pequenas cascatas e cada qual retinia como um sino a chamar os animais selvagens e convidando-os a beber um pouco da sua água cristalina e fresca. Quanto mais o arroio corria e com ele a nossa Pinguinha, foi-se juntando a outros cursos de água e cresceu e cresceu, de menino pequeno transformando-se em juvenil rapazinho e devagarinho em rio adulto, mas a nossa Pinguinha permaneceu uma pequena e divertida gotícula. E o rio adulto tornou-se um grandioso rio, transformando-se a certa altura numa elevada cascata que desabou num enorme troar ao embater nas rochas, e com um forte gemido de dor se quebrou em milhões de gotas cintilantes que alegremente saltaram para o topo de um belo arco-íris brilhando ao Sol, e o rio de espuma como um velho desdentado chiou. Mas a nossa Pinguinha delirou saltar das alturas e mergulhar nas águas revoltas.

Lá em baixo, a Pinguinha encontrou um cardume de peixes e com eles brincou. Os peixinhos divertiram-se com ela, levantando os rabos e lançando-a qual bola pelos ares e de novo a fazendo mergulhar na água borbulhante.

Viajando rio abaixo, a Pinguinha conheceu pelo caminho um monte de coisas interessantes. Quando se deparou com nadadores e crianças a brincar, com elas jogou em forma de uma chuvada na companhia das suas amigas gotas, e quando as gotas sobre elas caíram as crianças gritaram em uníssono: «Chuva! Chuva! Chuva!», num refrescante saltitar por entre as gotículas. Quando outras crianças se aproximaram da água, as crianças que nela brincavam pulverizaram-nas de gotas e as outras fugiram num alarido de gritos não se querendo molhar; a nossa Doce Pinguinha zangou-se, não compreendendo porque fugiam elas de tão diminuto, límpido e refrescante jorro. E porque, durante a brincadeira das crianças, a Pinguinha caiu numa haste de relva e não foi capaz de regressar para o rio-pai; começou por pedir ao Menino-Ventinho que soprasse mas este por mais esforços que fizesse não foi capaz de mover a gota. Pediu então ao Solinho Vermelho que a ajudasse e o Solinho alegremente concordou e começou a aquecer os seus raios mágicos, e a Pinguinha de novo se transformou numa pequena nuvem fofa e branca que se elevou no céu e o Ventinho apanhou-a e correram para nova aventura.

No caminho a ela se juntou outra nuvem de gotas e a nossa Doce Pinguinha ficou muito feliz. Dançaram num redemoinho, e convidaram outras nuvens a juntarem-se a elas. E assim foi que a nuvem de brincadeira se converteu numa enorme, negra e pesada Nuvem que o Ventinho já quase não tinha forças para empurrar, arrastando-a penosamente sobre os campos, florestas e prados. Logo ouviram uma quase inaudível fina voz de uma flor no prado pedindo para beber. Por ela foi a Nuvem negra às lágrimas, soluçando e derramando as suas lágrimas-pinguinhas num prado florido. E a nossa Doce Pinguinha voou a ajudar, regando o verdejante prado com a sua refrescante e alegre humidade. As gotas caindo sobre as flores e folhas e saltando e pulando de flor em flor. E o prado imediatamente reviveu, as flores começaram a empertigar os seus caules delgados e a exibir as suas formosas corolas de cor.

Para um tufo de flores foi dia de festa e ao festival acorreram todos os insectos, abelhas, moscas e besouros; num divertido roçagar e zumbir de finas asas valsaram eles em círculos sobre o tufo de flores, bebendo o seu doce néctar. E sem se darem conta caiu a noite. As abelhas voaram para as suas colmeias com os seus frascos cheios de doce néctar, os insectos recolheram às suas tocas e docemente adormeceram, as moscas dormiram sob as folhas e a nossa Doce Pinguinha, cansada de trabalhar, pousou numa flor que se fechava para a noite e dormiu profundamente até de manhã.

O protector padrinho Solinho soltou os seus cabelos de raios dourados e fez cócegas à flor onde dormia a gota, acordando a flor e abrindo-a. Dentro dela viu o Solinho a sua amiga Pinguinha e com os seus suaves raios matinais acordou-a docemente, e ela sorriu e pôs-se a brincar com todas as cores do arco-íris. O Solinho acordou igualmente todos os foliões da véspera, que voltaram ao tufo de flores refrescado da chuva e ainda mais verdejante e colorido.

Todos se deitaram ao trabalho, e a Doce Pinguinha pelo Solinho aquecida depois de uma noite fria transformou-se numa pequena nuvem branca e subiu alto no céu azul juntando-se a uma grande nuvem branca que passava. E como sempre acontece, a nuvem branca a vogar no céu ora aumentava ora diminuía de tamanho, ora se esfumava no ar. Divertindo-se a voar junto de grandes aviões com os seus motores a roncar, nas janelas dos quais se viam os rostos dos passageiros que não despregavam os olhos arregalados das bizarras formas de nuvens. E sob as nuvens rodopiavam aves numa dança em voo livre.

E lá voou a nossa Pinguinha em forma de nuvem na companhia de todas as outras e a elas se juntaram mais nuvens-carneirinhos comandadas pelo pastor Ventinho, e todas voaram sem destino. Gradualmente converteram-se numa enorme nuvem que cresceu a olhos vistos e o Ventinho acariciou os cachos da nossa nuvem e carregou-a de boa energia positiva. Mas então esta nuvem encontrou-se com outra nuvem preta-preta, zangada-zangada com a forte carga negativa com que fora carregada, que trovejando varria o céu a grande velocidade, alimentada por ventos fortes que rugiam e assobiavam. A nossa Nuvem Branca parou, reflectindo, sem saber o que fazer. Mas a Nuvem Negra que varria o céu não parou e colidiu com a Nuvem Branca com força tal que tombaram faíscas no chão e se ouviu um trovão incrivelmente atroador, e a terra tremeu, e nuvem negra misturada com nuvem branca por muito tempo lutaram e espalharam faíscas, relâmpagos e ruidosos trovões. Deste horror estremeceram pequenas nuvens-gotinhas derramando-se em gotículas, que despojadas caíram no chão sob a forma de uma chuva torrencial. E o vento que carregava a enorme Nuvem Negra atacou o Menino-Ventinho, que por esta altura crescera até mais não e ganhara força. Envolvidos em batalha, lutaram, tudo quebrando no seu caminho, retorcendo árvores e respectivas raízes. Tudo o que estava em terra firme se assustou e escondeu por todos os lados. Mãe e pais recolheram os seus filhotes para casa, abelhas esconderam-se nas suas casas chamadas colmeias, insectos ocultaram-se em tocas e moscas refugiaram-se em fendas e buraquinhos. Passado algum tempo de embate e guerra entre a Nuvem Negra e a Nuvem Branca e de uma e outra mais gotas perderem sob a forma de chuva, e com elas a força, cada vez se tornaram ambas mais brancas, pequenas e diáfanas até por completo desaparecerem. Tudo ficou sereno e calmo. Vento com Ventinho em luta enfraqueceram reconciliados.

Desaparecidas Nuvem Negra e Nuvem Branca, o Solinho olhou para a terra e ficou horrorizado com o que viu: casas desfeitas, árvores derrubadas, campos e casas alagados e todos os entes vivos sobre a terra fazendo por recuperar da destruição. As pessoas reparavam os telhados das suas casas, as aranhas teciam novas teias, os bichos bombeavam água para fora das suas tocas; só as moscas nada faziam, todos incomodando com a sua presença. Deitou-se ao trabalho o nosso padrinho Solinho, espalhando pelo solo os seus raios brilhantes e cálidos, aquecendo-o e secando-o. E dado que a nossa Pinguinha era por natureza muito bondosa, sentiu-se culpada por tudo o que acontecera em seu redor. Por voar através do céu com tudo se divertindo e sem pensar nas consequências. Por isso correu agora nas correntes de água formadas pela chuva, e com voz sonora pediu perdão pelas desgraças por ela provocadas e pelas outras gotículas.

E como sempre acontece, o pequeno ribeiro de chuva com a nossa Doce Pinguinha fundiu-se noutras correntes, e essas correntes noutras correntes submergiram e de novo se derramaram sobre pequenos rios, e os pequenos rios afluíram a um rio mais pachorrento e importante, carregando a sua água por planícies e vales para mares e oceanos azuis direitinho para onde ela vivia, a nossa Doce Pinguinha. E assim foi que a nossa gotinha suja e cansada viajou de volta para a sua casa no mar, para descansar, lavar-se e inspecionar se estava tudo em ordem.

Assim que a casa regressou, a nossa Doce Pinguinha visitou os mexilhões e pediu-lhes que lhe fizessem um favor — lavá-la e limpá-la — e os mexilhões de bom grado consentiram, pois que isso lhes dava prazer, e um dos mexilhões convidou-a a entrar na sua concha. A Pinguinha de casca suja converteu-se em gota límpida e bela. Agradecendo aos mexilhões, mergulhou nas profundezas do oceano azul, para visitar todos os seus habitantes que eram seus amigos e amigas.

Sentindo-se em casa, a Doce Pinguinha relaxada e despreocupada chapinhou nas ondas azuis de espuma branca. Delirou com um ruidoso rebentar e esmagar nas falésias rochosas e logo levantou voo e cintilou sob os raios solares. Muito gostou de se juntar a outras gotículas na onda azul-esverdeada, correndo pelas vastas extensões de oceano direita a enormes navios, embatendo com força nos seus cascos e de novo rolando sobre os conveses para o oceano. E quando com uma enorme baleia se encontrou, pediu-lhe que a levantasse no seu repuxo e a baleia não se atreveu a negar-lho e fez-lhe todas as vontades.

Com o passar do tempo, errando através do vasto oceano, a nossa Doce Pinguinha sentia frequentemente nostalgia das suas viagens, não se esquecendo daqueles que em tempos tinha salvado de morte certa e da seca. A Doce Pinguinha era imortal, e de nada e ninguém tinha medo. E diz-se que ela afrontou ventos e marés, e sempre saiu ilesa e incólume. Amava os bons magos e não tinha medo dos maléficos feiticeiros, que a transformavam em nuvens e gelo e floco de neve e por vezes a faziam explodir nas suas partes constituintes — hidrogénio e oxigénio. Tinha simultaneamente de mudar a sua forma e condição física, mas até que gostava. Quanto tempo viveu a Pinguinha na Terra ninguém sabe, talvez milhões, ou até milhares de milhões de anos.

E começou ela a reparar que os rios, mares e oceanos se tornavam a cada ano que passava mais sujos, e preocupada mergulhou a Pinguinha nas profundezas do oceano com perguntas, e a vida aquática e as suas companheiras gotículas logo acorreram. E todos repetiam a mesma coisa: que as pessoas começaram a construir enormes fábricas nas margens dos rios, mares e oceanos, sem pensar de todo no meio ambiente, sem cuidarem em limpar água e derramando a água suja nos rios e mares limpos, e pondo em prática uma grotesca economia que achava mais rentável despejar o lixo nos rios ou nas suas margens. E se cobriu de tristeza e dor a Pinguinha, que não conseguia entender isto de maneira nenhuma — «Como podem as pessoas contaminar a água como se dela não necessitassem? Ou acaso não saibam que eu, pequena pinguinha doce de que tanto gostam de usufruir, sou uma diminuta parte dessa mesma água?»

A Pinguinha sempre tentara ser o que todos adoravam — límpida e cristalina para agradar a todos os habitantes do planeta Terra — mas tornava-se cada vez mais difícil manter a sua pureza imaculada.

E perguntava-se a Pinguinha como explicar às pessoas que não se pode contaminar a água. E pensava a Pinguinha que à medida que as pessoas cada vez mais poluíam a água, não conseguia a própria Mãe Natureza purificá-la com a sua armada pessoal de médicos aquáticos — mexilhões e micro-organismos. Que dia e noite trabalhavam a limpar gota após gota de água mas não conseguiam levar a cabo o seu trabalho — e assim se esvaziaram o rio e o mar do peixe que neles vivia. A água nos rios ficou suja e doente e sem peixinhos dourados mas sim com micróbios transmissores de doenças, mas as pessoas bebiam ainda assim dessa água porque não havia já água pura. E a água viva em água morta se transformou e toda a espécie de problemas e enfermidades trouxe às pessoas, e os rios onde dantes chapinhavam os peixes que cresciam nas margens das florestas verdes vogam agora silenciosamente corrente abaixo, por entre pneus de automóveis e sacos de plástico, frascos e garrafas, todos se movendo para o mar azul e ameaçando transformá-lo na maior fossa. E nas margens dos rios onde outrora cresciam florestas verdes começaram a crescer enormes pilhas de lixo. Tudo isto apurou a nossa Pinguinha ao falar com a vida aquática e as suas amigas gotículas que retornavam a casa após uma longa viagem e entre si contavam estas terríveis histórias.

E então decidiu a Doce Pinguinha fazer uma longa caminhada para avaliar a situação propriamente dita e explicar às pessoas o que é bom e o que é mau. E pediu a Doce Pinguinha ajuda aos seus velhos amigos de confiança — o bom padrinho Solinho e o Menino-Ventinho — para que a ajudassem nas suas boas intenções: salvar o planeta azul e verde chamado Terra. O Solinho e o Ventinho gostaram da ideia da Doce Pinguinha e deitaram-se ao trabalho. O Solinho agitou a sua varinha mágica ao rubro e transformou a Doce Pinguinha numa pequena nuvem branca, e o Menino-Ventinho soprou a nuvem e voaram bem acima do solo para terras distantes e territórios desconhecidos, para que ela tudo pudesse ver com os seus próprios olhos, e dar água limpa a beber às pessoas.

Muito tempo voaram o Ventinho e a Doce Pinguinha e muito cansados ficaram, indo à procura de um lugar para descansar; mas logo se depararam com umas altas montanhas rochosas e, sem forças já para superá-las e presos no flanco da montanha, decidiram dormir sobre o assunto. O padrinho Solinho disse-lhes adeus e foi para a cama. A noite caiu fria e a Pinguinha-Nuvenzinha estremeceu numa gota de cristal e caiu por terra, nela se infiltrou e encontrou um pequeno riacho subterrâneo e com ele nadou para o desconhecido. E incrivelmente cristalino era este riacho, e acaso a sua pureza determinasse o destino da nossa Doce Pinguinha…

Ao fim de certo tempo a nossa Pinguinha encontrou-se numa pura nascente de água, e sem tempo para gozar o delicioso sol e o ar fresco de novo foi sugada por um tubo dentro. Por este terrível tubo foi a Doce Pinguinha dar às instalações de uma fábrica onde todos os tipos de máquinas roncavam enchendo e fechando garrafas. E logo a nossa Doce Pinguinha se viu bem fechada dentro de uma garrafa. Veio uma máquina carregar a garrafa para um caixote e daí para um camião e para uma grande loja chamada Pingo Doce. E definhando apertada dentro de uma garrafa numa prateleira escreveu a Doce Pinguinha este instrutivo conto para crianças, para que elas se lembrem sempre dela quando se tornarem adultas e tratem com todo o cuidado a nossa casa — o planeta Terra.

E perguntam todas as crianças, «Onde está agora a Doce Pinguinha?» Lá está ela nessa loja chamada Pingo Doce, esperando um libertador cavaleiro que a venha resgatar, pronta a agradecer ao seu salvador dando-lhe a beber o seu néctar incrivelmente delicioso e pleno de frescura.

E aqui termina este conto, e parabéns aos que o escutaram!